Boldo, espinheira-santa e outras ervas que o Brasil esqueceu de valorizar

Tem uma ironia interessante no mercado de ervas medicinais no Brasil: enquanto o país importa grandes volumes de camomila, lavanda e melissa europeia, ignora sistematicamente um patrimônio botânico de proporções continentais. Não é exagero dizer que a biodiversidade brasileira, especialmente no cerrado e na mata atlântica, abriga plantas com propriedades documentadas que nunca chegaram à prateleira do supermercado — e provavelmente nunca chegarão, porque o caminho da planta nativa ao produto regulamentado é longo, caro e pouco atraente para a indústria.

Isso não significa que essas plantas estejam inacessíveis. Significa que elas continuam no circuito popular, nas feiras, nos quintais, nas mãos de raizeiros que carregam um conhecimento acumulado por gerações e que a academia foi lenta em reconhecer. Mas o reconhecimento chegou, e veio com dados.

O boldo-do-brasil não é o boldo chileno

Quem pede boldo na feira brasileira provavelmente vai receber Plectranthus barbatus — o boldo-do-brasil, uma lamiácea com folhas grandes, levemente aveludadas e cheiro característico. Quem compra boldo em cápsulas nas farmácias geralmente está levando extrato de Peumus boldus, o boldo chileno, uma planta completamente diferente em termos botânicos e em composição química.

A confusão é antiga e persiste porque ambos são associados ao fígado e à digestão. Mas os mecanismos são distintos, as contraindicações são distintas, e o sabor — para quem usa a planta fresca — não tem nada a ver. O boldo-do-brasil tem um amargor suave e notas herbáceas; o chileno é muito mais intenso, com um perfil que lembra levemente eucalipto.

Para uso doméstico como digestivo ocasional, o boldo-do-brasil é o mais acessível e o menos estudado dos dois. A Anvisa mantém uma lista de plantas com registro simplificado como fitoterápicos, e o caminho pelo qual uma planta entra ou não nessa lista diz muito sobre as prioridades regulatórias — e sobre o quanto o conhecimento popular é ou não levado a sério.

A espinheira-santa e o que a ciência confirmou

A Maytenus ilicifolia é um arbusto nativo da mata atlântica com folhas espinhosas que lembram remotamente o azevinho europeu. Usada há séculos por populações indígenas e ribeirinhas para problemas gástricos, ela foi durante muito tempo tratada com o mesmo ceticismo reservado a qualquer remédio “da vovó”.

Mas a espinheira-santa foi uma das primeiras plantas nativas a entrar no Programa de Pesquisas de Plantas Medicinais do Brasil, nos anos 1980, e os estudos que se seguiram documentaram atividade antiulcerogênica consistente em modelos experimentais. Não é um antiácido no sentido convencional — a ação parece envolver proteção da mucosa gástrica, não apenas neutralização de ácido. A diferença é clinicamente relevante.

Hoje ela está na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus) e pode ser encontrada como chá em algumas farmácias de manipulação. O problema continua sendo o acesso: quem não vive perto de um raizeiro ou de uma farmácia de manipulação comprometida com fitoterápicos dificilmente encontra espinheira-santa de qualidade no comércio convencional.

Cultivar o que é daqui

Há um movimento crescente de pessoas que estão redescobrindo a flora brasileira não apenas como curiosidade etnobotânica, mas como possibilidade real de cultivo doméstico. Espinheira-santa, por exemplo, cresce bem em vasos grandes ou diretamente no solo, tolera meia-sombra e é relativamente resistente a variações de temperatura — uma combinação que a torna viável mesmo em quintais urbanos.

O desafio é encontrar mudas. A espinheira-santa não está no corredor de plantas do centro de jardinagem médio, e propagá-la por sementes exige paciência porque a germinação é lenta e irregular. Mas ela está cada vez mais presente em feiras agroecológicas e em viveiros especializados em plantas nativas.

O Meu Verde Jardim é um dos espaços que vem dedicando atenção a esse tipo de cultivo menos óbvio — plantas que fogem do repertório padrão de hortelã e alecrim e que conectam o jardim doméstico a uma tradição botânica genuinamente brasileira. Esse movimento tem algo de político, ainda que silencioso: preferir o que é nativo é uma forma de resistência à homogeneização do que chamamos de “erva medicinal”.

O que está no quintal sem nome

Uma pesquisa conduzida há alguns anos pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro mapeou plantas medicinais usadas em comunidades do Rio e encontrou dezenas de espécies que não constavam em nenhum compêndio farmacológico nacional. Não porque fossem ineficazes — mas porque nunca tinham sido estudadas.

Esse é o tamanho do que ainda não sabemos. E é, também, uma razão para olhar com mais atenção para o que cresce perto de casa antes de comprar o sachê importado.

Lory Aguiar